As mãos se guiam com a dor

#conto #divagação

Largo o lápis, fecho os olhos. Quando o que se vê poderia representar um excesso de estímulos? Um pouco demais, as vistas, a pele, o gosto, os sons, o passeio dos pensamentos. Coloco a língua para fora, alivio os maxilares que funcionam como a lixeira de tensão do corpo. Respiração pesada feito o corpo, feito entender o que é o corpo dentro de uma presente gravidade. Nada grave, não é um vislumbre da morte, um derrame, apenas taquicardia, um momento. E o peso caminha para fronte, se fosse um tronco, esse poderia ser o momento em que as raízes apodrecidas cedem e cairia enrijecida, reta. Sentada no chão da cozinha, abro a geladeira. Ainda tem suco de manga, então alcanço na bancada a xícara de alça remendada. Queria que fosse recuperada como as cerâmicas japonesas e suas emendas de ouro. Despejo um gole, engulo um gole, sinto o açúcar despertar as extremidades do meu rosto. Ainda sinto a densidade dos pensamentos formando nós no pescoço, mas consigo ao menos erguer um pouco mais as pálpebras. Os pés, no entanto, seguem dormentes, e me ocorreu que água quente (e um punhado de ervas) cumprem uma função no restauro do corpo-mente, ou corpo-mente-espírito quando eles são aquecidos. Me pergunto se isso vale também para os pés apodrecidos, e se existiriam outras podas possíveis para recuperar um pouco de vida a partir da base. Tudo parece excesso, um excesso de joios, e tantas sobras subiam pelas paredes com tontura e choro entalado. Sento nas minhas mãos, pressão e restrição, fique longe do lápis, apenas fique longe, pesada feito a gravidade. A vitrola em silêncio, as cinzas do incenso se espalharam com um vento mais forte. Coloco as mãos no colo, relevos de veias e marcas da calça desenharam um mapa nas suas costas. O domingo segue, o sol ainda alto. Me recolho com esforço para as tarefas lentas de regar as plantas. Sinto o sangue na ponta dos dedos ao carregar os vasos mais pesados até a área de serviço/cozinha e, enquanto lavo as folhas mais encorpadas com uma ducha suave, me lembro das suas próprias raízes. Elas cresciam, eu tinha noção disso? Elas morriam sem que eu visse? Como era possível ver o tempo passar? Engulo ondas de culpa por perceber o tanto que perco diariamente. Penso, despejando a terra no chão onde me sentava no minuto anterior, vaso por vaso, enquanto desfaço com os dedos gruminhos endurecidos, a casa comportando silêncios e ruídos de maritacas. As pontas dos dedos aliviam minhas vias respiratórias tanto quanto as das plantas, imagino, desobstruindo raízes e limpando folhas, desgrenhando o que via através dos dedos feito um canal de intuição que dispensa os olhos. A vontade que cruza a cabeça é de deixar as palmas descansando ali, na pilha de terra, e erguer as pernas para o ar, aceitando o peso da cabeça como uma súplica para ficar ali, no solo. Me lembro da infância, quando via árvores como seres de ponta cabeça e múltiplas pernas, com a cabeça repousando junto dos dedos. A terra fresca, o ar quente. Escaldar pés, esfriar a cabeça pela mãos. Percebo a sonolência tomar conta como se ocupasse o espaço cedido pela dor abstrata enquanto se encaminha para as digitais.

Gosto de recuperar de vez em quando um texto de que gosto muito e que é atribuído a Elena Barnabé. Provável que você já tenha lido em algum momento o diálogo que começa com “vovó, como se lida com a dor?” e te convido a visitá-lo em português aqui.

O rosto dessa autora que para mim era um mistério se desanuviou quando encontrei o nome Elena Bernabè (por que traduzem esse sobrenome?) e referências desse texto fazendo parte do livro Alla conquista delle stelle, mas você pode ler esse trecho original em italiano por aqui; não leio em italiano, mas valeu um tradutor para acessar uma versão estendida com mais umas reflexões sobre ser artista enquanto se drena as emoções com as mãos transformando ideias em imagens, textos, pães, podas. E como nos prejudicamos não com a emoção, a tristeza, raiva, dor, mas com sua estagnação, sufocando-as em espaços miúdos como se assim fossem evaporar. E então existe a alternativa de recorrer a um trabalho manual como uma ferramenta de cura. Independente do que você pode reconhecer como trabalho manual ou do quanto pode se afastar da ideia de ser criativa(o), de quantas vezes vai repetir que não tem talento ou coordenação motora para “nada”.

Talvez sejam percepções que eu tenha por estar cada vez mais vinculada (leia-se: curtindo) à psicanálise, às ideias de linguagens, às traduções mais orgânicas de uma mensagem e de um sentido, acreditando que, sim, posso cortar meu próprio cabelo em nome da expressão de um sentimento, ou preparar um bolo depositando ali o que carregava em cima dos ombros. Arrastar os móveis e mudar o curso do vento na sala, comprar uma vassoura curta para facilitar partes da faxina. Usá-la, efetivamente. São ações feitas com uma frequência muito maior do que escrever, criar alguma arte diretamente; são resultados dificilmente registrados, publicados, mas como não relacionar o destralhar a casa com uma limpeza psíquica e a descarga de uma frustração, por exemplo? Ou pensar nas muitas vezes onde vemos a culinária como um preparo com amor? Talvez bater uma massa de pão com violência. E também as atividades físicas que expressam, mesmo sem coreografia. Parir um lindo quadro com sua dor não é o único resultado possível, previsto, estimado da pergunta “o que fazer com o que sinto”. Dali não precisa sair nada que você monetize ou sequer guarde. Talvez seja apenas questão de sair.


Essa newsletter faz parte de uma série de três que estou costurando para o curso de técnicas criativas para transformar ideias em texto, da Aline Valek. Começamos com o tema do fluir, o flow, e aqui esse par de mãos guiou para fora a dor. A próxima e última edição dessa “série” encerra com a última parte desse miniconto e mais divagações. Me acompanha?

Um beijo,