Lascas

#conto

As fundações do meu corpo nunca foram das mais bem acabadas, mas isso só fui entender de verdade tempos depois das fendas começarem a abrir. Descobri as falhas não de olho; fui guiada pelo reflexo dos olhares. Primeiro, passaram batido, afinal, sou distraída que só, dessas que batem com a cara em portas de vidro. Porém, quando as sutilezas se somaram até virarem ruído, comecei a sentir um comichão. Vez ou outra alguém me olhava de soslaio e colocava a ponta dos dedos em pontos variados da própria mandíbula. Nunca tive coragem de abordá-las, todas aquelas pessoas, e ouvir em palavras claras. Ninguém nunca soube lidar com a necessidade de palavras claras, acho. Então parti dali para trabalhar em cima do meu rosto, nos lugares que começaram a latejar com a percepção adquirida. Fui me notando.

De primeira, foi muito básico. Conhecia a técnica de lambe, via a aderência em postes pela rua e achava fantástico. Usei o látex da oficina e uma trincha pequena para cobrir toda a superfície mapeada, uns poucos centímetros. Fiz um acabamento com guache encarando uma foto que recortei da capa de uma revista que nem me lembro mais do nome. O remendo foi eficiente para espantar umas olhadas por um tempo que não medi, mas logo vi sinais do desgaste e os farelos pediram uma camada um tanto mais grossa na manutenção. Fui no que tinha à mão: folhas mais encorpadas, menos porosas. Os adornos iam subindo e ocupando o restante do meu rosto.

Arranquei pedaços à medida em que me pareciam estranhos ao toque. Fiz emendas com tecidos bonitos de muitos fios. Parti para a modelagem quando senti falta de corpulência, camadas volumosas de argila. Era apaixonante sentir o poder de criar só de acordo com a pressão dos dedos. O problema era que precisava simular uma tela em branco antes de criar, então durante um período trabalhava uma massa de farinha que levava alguns dias para secar e enrijecer por completo. Normalmente eram os dias em que ficava mais ensimesmada. Ou recolhida longe do sol ou com um lenço amarrado feito trouxa embalando a cabeça. Mas valia, o barro do trigo fazia vibrar mais as tintas. Todas as cores simplesmente pareciam mais bonitas.

Perdi as contas que nunca lembrei de iniciar, mas que o tempo marcou de qualquer forma. Aquela segunda pele ressecada trincou e das rachaduras caíam poeiras que inalava de vez em quando. A tentativa de tatear para interpretar o que quer que fosse era inútil sempre. Os dedos não percebiam textura para além dos próprios cortes em suas juntas. Feridas da insistência. Minúsculas, superficiais, ardores espalhados. E fico assim, sem saber mais o que é pele e o que é barro e se sequer existe diferença. Penso, sentindo no rosto o calor das mãos apesar da distância de todas as camadas, esperando respostas de um outro. Soltando questões para o céu e esperando esclarecimentos na terra. Sim, não sei o que é pele e o que é barro e o que é corte. Abraço tudo, afinal, a violência maior me parece ser decepar as mãos por "acidente" ou rasgar a pele para me livrar de mim só por uma confusão.

E todas as sementes, e todas as lascas, e todos os vidros em mosaicos. Tudo o que agregava na minha peça-rosto que se aproximava de algo feito. Arrematado.

O que cai naturalmente eu recolho do colo e dos ombros e guardo em uma caixa articulada de vidro. Pedaços e poeiras. Parece um memorial, como se expusesse em museu arqueológico, mas é quase. O carinho que ofereço ali é projetado, claro, mas o trabalho que foi esculpir cada fase dessa superfície merece uma honraria, e isso é externo a mim. De alguma forma, tudo reluz.

Simples assim, admiti tantos resíduos em seus altares, sempre ao alcance.


Conto escrito por volta de agosto de 2020, reaquecido ao ler As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino.