O flow se faz com as mãos

#conto #divagação

Bastavam quinze minutos para esgotar a louça que acumulei ao longo do dia anterior. Alguma coisa em torno de quatro ou cinco músicas, um podcast curto, um vídeo de YouTube intermediário. Era bom ter a companhia de um som enquanto limpava. Cerdas de vassoura, pano de microfibra, jato d’água, tudo o que pudesse dar um ar de renovação. E, sim, companhia, pois de solidão já bastava o isolamento que as paredes proporcionam. Era essa a medida certa, ou ao menos a minha medida de equilíbrio. A partir daqui já preciso de um estímulo que extrapole a interlocução da cabeça. Burburinho mental. Sandra me enviou alguns áudios longos, provavelmente falando do dia ou da noite que passou, não sei bem em que fuso estava, e os deixaria para depois: senti que o momento pedia lenço na cabeça e disco na vitrola. Escolhi SZA, acendi um incenso em cone que ganhara meses atrás, comecei a lavar. Era domingo, oito da manhã, não usava calças, estava frio, o dia era uma história. Deixei uma chaleira com água no fogo médio. Nada era exatamente bonito, mas reconhecer o lenço, o incenso, as pernas, reconhecer era o ouro. Era algo como ver tudo ao redor com os olhos que não são meus, então mesmo a xícara quebrada parecia mais interessante de investigar. A alça colada com silicone, comprá-la em uma feirinha de bairro, os sorrisos dos vendedores novos, o céu azul transparente do inverno em que ninguém se agasalha, o mesmo céu que teria visto em Sicília, a única vez em que pisei em terras europeias foi naquela ilha, decidi por aquela viagem meses depois de terminar com Cecília, estava um pouco em frangalhos e a conduta de choque era metade tortura, metade medo de ficar eternamente ali, com medo de cruzar sua rua, de conhecer outras pessoas regidas pelo signo de virgem. Pois vou, pois fui, e escrevi uma poesia, mas o que queria mesmo era escrever uma música. Uma gotinha de detergente, esfreguei os pratos de porcelana quase como num afago, atravessada pela música. Vazia, preenchida de sustos curtos, ondas de frio na barriga, ondas de coração partido, as ondas de Sicília, a fruteira com limões sicilianos, dei uma risada ao perceber quantos eu tinha, devia fazer um doce com tudo aquilo antes que perdesse. Gastar antes de perder, ondas, ondas. Um aperto no peito, a música ainda tocando, sequei as mãos para alcançar com pressa a primeira folha de papel que vi pela frente. Um lapso de genialidade de uma ideia abstrata para registrar. Registro incompleto, sempre é, mas irresistível, como deve ser.

Gosto de pensar que criatividade, além de fazer parte de qualquer profissão, qualquer pessoa, vem de um lugar duplo daquilo que você busca e daquilo que se reconstrói enquanto você existe. Sim, apenas segue seus dias, funcionando em camadas de consciência e bagagens um pouco mais silenciosas que se recombinam muito claramente enquanto você sonha, mas também quando você se solta das obrigações de procura. O insight não é regra, o acaso é só uma das maneiras de gerar uma ideia. No dia a dia você vai atrás, muitas vezes sem saber exatamente do que, caminhos se constroem nos durantes. Mas me interessa pensar nesses momentos onde você “esquece” dos impulsos criativos na suposta banalidade de limpar, organizar, descartar, cuidar de uma casa nessa dimensão mais externa e ver os efeitos ali, coladinhos com suas intenções, produções. Afrouxar a mente como parte das 40h semanais, o respiro faz parte dos projetos, do trabalho, a incubação do que for que você estiver fazendo, pensando, querendo. Profissionalmente, academicamente, para seu lazer.

Fica mais gostoso seguir com uma faxina pensando nisso. Ou um pouco menos labutoso, ao menos.


Essa newsletter faz parte de uma série de três que estou costurando para o curso de técnicas criativas para transformar ideias em texto da Aline Valek. Começamos com o tema do fluir, o flow, e esse par de mãos nos traz para outro par mini conto + divagação nas próximas edições. Talvez consiga lançá-las em três domingos seguidos, talvez não. Aposto no sim. Me acompanha?

Um beijo,