Registros, rastros, novos

#divagações

Abril marca um ano desse projeto de escrever essa newsletter. Então resolvi dar uma chacoalhada nessa (pouco elaborada) ideia: fiz uma migração de plataforma, tinyletter para substack, emendando com a vontade de reestruturar isso daqui (ou: começar a construir uma estrutura) porque estava impraticável seguir daquela maneira; vincular textos a um outro projeto estacionado, muito provavelmente em coma, ou em eterno banho-maria. Aliás, que insuportável a palavra projeto. Não quer dizer necessariamente nada. Igual a coisa. Mas “coisa” exclui um tom empresarial desagradável. Enfim, acredito estar desligando acabaxi, e desconectando a newsletter daquelas bandas para ter uma existência independente. Não fazia sentido insistir nesse pertencimento, e o ser humano é doido com uma coerência.

Quando vi essa estrutura título-subtítulo-corpo, fui automaticamente enfiando uma hashtag no subtítulo e defini uma estética e categoria. Aqui são as #divagações. Uma boa síntese, vamos ver até onde vai. É bom saber o que aguarda. Agradeço à Rosa Montero pela luz nessa empreitada com suas #’s em A ridícula ideia de nunca mais te ver. #honraaospais hahahaha

Mas o suporte faz toda a diferença. E digo isso porque minha linha de coerência desde o começo disso tudo (ali em 2016, ou antes, até) veio do papel. O lugar de registro. Comecei a costurar cadernos depois de um bom tempo sendo, como qualquer pessoa, fissurada em ter sempre um bloco de anotações à mão. Então convencionei acabaxi como um lugar experimental para isso: costurar espaços de expressão. Mas o saber fazer me deu tanta possibilidade de explorar que fiz, para mim, todo tipo de cadernos. Não sei quantas costuras, capas, gramaturas e cores de papel, me aventurei a fazer um fichário, e lógico que o registro foi se dispersando. Faz mais sentido anotar isso aqui, rabiscar aquilo nesse tipo de folha, nesse formato de caderno. Registrar, registrar, registrar.

O formato blog foi um suporte de registro por muito tempo. Ainda é, mas perdeu destaque, desceu uns degraus. Ainda registro ali, assim como registro em tantos cadernos (simultaneamente, em uma mesma ação desmembro anotações em até cinco cadernos), e assim como registro em mensagens para mim mesma no telegram, é totalmente intuitivo me carregar para um lugar ou outro. Sentir a necessidade de ir ali ou aqui, um impulso não impulsivo.

E o sentimento de se sentir levada para algum lugar é de um vínculo delicioso.

Tem um quê de envolvimento, de “auto incentivo”, um empurrão para seguir o que se quer fazer. É um pouco a ideia de etiquetar, dar um toque de formalidade, diria David Allen em todas as suas constatações a respeito de atribuir uma função a um suporte fixando um nome nessa pasta/caixa/caderno/gaveta, uma gracinha que faz toda a diferença. Comemos com os olhos, o formato do macarrão muda seu sabor, nos nutrimos com os olhos, nossa percepção não é mera expectadora.

Em alguns cadernos a nossa letra até fica mais bonita.

Todo espaço de registro é um reflexo de um tanto da nossa vida. Um pedaço da nossa história materializada, assim como também se materializa nas nossas roupas, livros, tralhas. E me pego tentando descartar tantos desses registros de tempos em tempos. Apagar esses rastros, esquecer esses tempos, eliminar essas linhas de pensamento. É evidente que rastros são percursos, sinais que ficam quando algo passa, marcas. Nos agarramos a algumas materializações com a mesma força que direcionamos a mandar outros para o espaço. Limpar nossa caminhada, deixando apenas os passos mais dignos, uma narrativa polida de nós mesmas. Passar rascunhos a limpo na forma de novos rascunhos.

Fazer uma tatuagem não seria um pacto com seu passado imediato e o futuro distante? Concordar com a eternidade, por mais que aquelas borboletas coloridas fiquem assombrosas. Conviver com (as escolhas dos) passados. Até porque o peso de tentar se desfazer dessa marca vai além do se enganar e fingir que aquilo nunca existiu.

Enfim, estou satisfeita com isso daqui. Por enquanto. Tentando levar da maneira mais tranquila (e honesta) possível: ressaltar o experimental para combater o perfeccionismo e a enrolação (cansei da palavra “procrastinação”). O que não é um experimento (ou experiência), no fim das contas?

O jeito é descobrir na prática (em movimento).

Ainda vou compartilhar umas coisinhas interessantes:

  • O texto A metáfora das plantas, da Carla Soares, sobre reconhecer o histórico de uma planta que a faz morrer em suas mãos, sobre gestar como uma forma de agir. “Todas as vezes que chamam alguém de planta é pra fazer virar bicho. Mas é uma falta de visão considerar que por estar parada a planta é menos potente.”

  • O livro Agilidade Emocional, da Susan David, sobre libertar a mente de enredamentos malucos, se enxergar através das suas manifestações e estratégias para perceber os próprios pensamentos e emoções exatamente como são: pensamentos e emoções. Coices e carinhos.

  • Publiquei um conto aqui que escrevi há mais ou menos um ano, mas com ajustes. Ficou sendo a postagem de estreia da news, mas que escolhi não disparar.

Essa plataforma se replica feito um blog! Olha que interessante. Tem um domínio, tem espaço para comentários, uma página de “sobre”. E, sinceramente? Escrever aqui me oferece um espaço em comum com a Patti Smith. Não tem erro.

Em tempo: acredito que, mesmo tendo os comentários, você ainda consiga me responder via email. Podemos ir testando.

Obrigada por ler até aqui :)

Um beijo,
@amandamontt